A TESE DA EFICIÊNCIA DO MERCADO - 03 de novembro de 2008
Por Manuel A. P. Miranda

Pois é. A vida é mesmo cruel. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Até parece que o mundo vai vir abaixo. Os líderes representativos da poderosa e orgulhosa “corporate America” não conseguem justificar nem explicar o que aconteceu. O fato incontestável é que a tese de que o mercado não precisa de regulamentação nem de controles governamentais hoje não encontra tantos defensores. Até vacas sagradas como a tese de que o mercado é eficiente estão sob ataque. Segundo está hipótese os preços dos ativos financeiros (ações, debêntures, imóveis) levam em conta e refletem toda a informação conhecida e disponível.

Defensores dessa teoria acreditam que ninguém conseguiria manipular o mercado. Mais, a hipótese da eficiência do mercado afirma que é impossível alguém ter melhores resultados do que o mercado de uma forma consistente, através do uso de qualquer informação que o mercado já conhece, a não ser por só e tão somente por sorte. Mas se assim é, então como explicar que de repente vários ativos ficaram sem poder estabelecer seus preços.

A crise que estamos vivendo é uma crise de confiança. Os mercados se tornaram opacos. E sem transparência ninguém consegue estipular quanto vale ou não vale um ativo. Essa falta de transparência pode ser vista com clareza no mercado de derivativos que transacionam trilhões de dólares não ter regras claras e de aplicação geral e obrigatória. Isto acontece inclusive no Brasil. Como afirma Celso Boin Junior, chefe de análise da Link Investimentos, “os negócios com derivativos foram uma quebra de paradigmas no mercado de capitais, eles mostraram que a partir de agora a análise das empresas precisa ser feita de outra forma, sem contar que trouxe insegurança aos investidores."

Ao contrário do que muitos pensam, também no Brasil temos problemas de transparência, como ficou claro quando os grandes bancos brasileiros não usaram o dinheiro do compulsório para comprar as carteiras de empréstimos dos chamados pequenos e médios bancos, preferindo depositar de volta o dinheiro no Banco Central lastreando-os com títulos públicos.

O que acontece é o seguinte. Quando os investidores precisam de caixa por enfrentar problemas de liquidez, eles vendem os ativos que os compradores ainda querem comprar, não aqueles ativos que os investidores gostariam de vender. Isto explica uma parte das saídas de recursos das bolsas de valores dos países emergentes. Estas perderam mais da metade de seu valor neste ano. Enquanto isso os títulos governamentais (bônus) desses mesmos países estão pagando mais de oito pontos percentuais acima do que é pago pelos Treasury bônus do governo Americano. Já os papéis usados para financiar aquisições do tipo management buy-outs estão sendo negociados por 70 por cento de seu valor de face.

O gráfico a seguir da uma boa idéia do problema.

As perspectivas de uma recessão profunda estão pondo um ponto final no chamado “commodities Bull market.”

Para complicar mais a situação de acordo com State Street Global Markets, os investidores Americanos que detêm mais de $5 trilhões em ações de empresas estrangeiras, estão repatriando seu dinheiro. A razão é simples, Wall Street apesar de tido um desempenho ruim nos últimos meses perdeu menos do que as bolsas dos países emergentes. Números da AMG Data Services mostram que os chamados international mutual funds tiveram saques da ordem de $31 bilhões no terceiro trimestre, enquanto isso American-based funds tiveram um ingresso de novos recursos da ordem de $28 bilhões. Isto explica a subida do dólar a nível mundial.

Infelizmente, além das muitas coisas que já deram errado este ano, novo problemas parecem inevitáveis. Os bancos dos países desenvolvidos deverão ter novas perdas nos países em desenvolvimento principalmente os bancos europeus. A exposição em países em desenvolvimento destes é muito maior do que a dos bancos americanos. Em termos globais os empréstimos dos bancos europeus para os países em desenvolvimento são sete vezes maiores do que o número dos bancos americanos. Se considerarmos apenas o leste da Europa, o comprometimento dos bancos europeus na região é 25 vezes maior do que a dos bancos americanos.

Temos também a derrocada do chamado “structured-debt market.” A cada nova companhia que entra em falência, esta causa um efeito cascata num conjunto de produtos derivativos ditos complexos. Isto leva a queda vertiginosa do preço de títulos do tipo collateralised-debt obligations (CDOs). Por fim, o Banco da Inglaterra, reviu para cima suas estimativas das perdas globais do sistema financeiro chegando ao numero de $ 2.8 trilhões.

 

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