As eleições Americanas e a crise mundial - 06 de novembro de 2008
Por Manuel A. P. Miranda

”Demorou um tempo para chegar, mas esta noite, pelo que fizemos nesta data, nestas eleições, neste momento decisivo, a mudança chegou aos EUA.” - Barack Obama

Desde o primeiro mandato de Ronald Reagan, no início dos anos 80, temos assistido o sucateamento das principais agências reguladoras Americanas como SEC, IRS, FCC, etc. A explicação para esse comportamento das autoridades era a visão de que a ingerência do estado nos negócios produzia ineficiência nos mercados. Os resultados dessa decisão política estão sendo sentidos hoje, com a eclosão da maior crise econômica mundial desde a Grande Depressão de 1929. Vamos necessitar restaurar a confiança do público Americano e também de todos os povos ao redor do mundo nas instituições reguladoras e isso implicará em assentar as bases de um novo marco institucional para lidar com as questões do comércio mundial, das finanças mundiais, e da liberalização da circulação do trabalho a nível mundial. São momentos de crise. São momentos que requerem sinalizações claras do governo para o mercado.

As eleições americanas mostraram com clareza qual é a direção que o mundo deve ter. O povo americano deu o sinal dos tempos. Votou pela unidade e não pela divisão. Os eleitores disseram claramente: somente unidos venceremos a atual e gigantesca crise de confiança que afetou os mercados financeiros e levou ao colapso organizações tradicionais e centenárias. Com a eleição de Barack Obama, o povo americano mostrou que o caminho da paz e do progresso passa pela inclusão de todos os setores sociais e não pela exclusão seja ela baseada em raça, cor ou crença religiosa.

Barack Obama será o primeiro African-American a comandar a maior economia do mundo. Teremos, também no Congresso, uma maioria consistente de membros do Partido Democrata. O presidente-eleito, Barack Obama, tem se mostrado um estadista sintonizado com os problemas cruciais que devem ser atacados. No centro desses problemas está a necessidade de colocar um freio nos chamados contratos derivativos. Alan Greenspan reconheceu recentemente que ele errou quando no final dos anos 90 não os disciplinou. O novo presidente Americano disse em seu discurso e com toda a razão: “Yes. We can!” Sim. Unidos os povos e os governos vencerão a crise de confiança e restaurarão os fluxos de comércio e das finanças mundiais. Mas, os governantes mundiais terão que agir com senso público e de urgência. A solução dos problemas não pode ser postergada. É preciso agir imediatamente e com muita força e inteligência.

Por exemplo, os especialistas indicam a necessidade de um grande pacote público para estimular a economia Americana. Os números deverão ultrapassar a casa dos 500 bilhões de dólares. Esses números deverão ser somados aos já aprovados 850 bilhões de dólares. Esse pacote não poderá esperar pela posse da nova administração. A razão disso é que além de controlar e dar maior transparência ao sistema financeiro, a liderança do setor público, particularmente, nos setores de infra-estrutura será necessária para que as empresas privadas voltem a investir pesadamente, condição necessária para a redução do desemprego que afligirá milhões de trabalhadores ao redor do mundo.

O novo Treasury Secretary precisará ser um peso pesado da estirpe de Larry Summers, Paul Volcker, ou Warren Buffet. Necessário também será definir se o Federal Reserve e a SEC precisarão ter novos comandantes. O importante é que as mudanças precisarão ser decididas com inteligência e implantadas com rapidez não só nos Estados Unidos, mas também em todos os demais países.

Os fatos econômicos e financeiros que têm vindo à tona indicam claramente que as economias dos países desenvolvidos bem como aquelas dos países em desenvolvimento sofrerão uma profunda e longa recessão. O tamanho dessa recessão não pode ser subestimado nem a necessidade de mudanças no sistema regulatório. As soluções deverão levar mais em conta os interesses da chamada Main Street do que aqueles da chamada Wall Street.

 

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