A CRISE DA SUBPRIME - 31 de outubro de 2008
Por Manuel A. P. Miranda

“Quando alguém precisa de mais de cinco minutos para explicar uma transação financeira para outra pessoa ou cliente, essa transação não é boa!” – Anônimo

Vivemos numa aldeia global. Todo mundo sabe de tudo nesta era da cibernética. E ao mesmo tempo. A cobertura dos eventos é online e real time. Isso tudo acelera e multiplica o pânico. Quando alguém liga seu aparelho de TV, assiste o repórter da Rede Globo falando diretamente de Nova Iorque sobre a crise da sub-prime. Esse cidadão brasileiro coça a cabeça e se pergunta: o que é que é a tal da sub-prime?

A crise da sub-prime foi o nome dado pela imprensa mundial aquilo que na realidade deveria ser chamado de crise envolvendo os financiamentos imobiliários concedidos pelo sistema financeiro Americano para clientes com histórico de crédito duvidoso. A origem dessa crise deve ser buscada, em primeiro lugar, na taxa de juros extremamente baixa praticada desde o início deste século pelo Federal Reserve que é o Banco Central dos Estados Unidos. Essa crise está também relacionada com o processo de desregulamentação do sistema financeiro americano que levou a criação daquilo que se chama de Shadow Banking System. O movimento de desregulamentação que começou durante o governo de Ronald Reagan implicou na criação de um poderoso sistema de instituições financeiras que não se submetiam as normas do Federal Reserve. Importante, também, para a propagação e intensificação da crise de caráter mundial foi o lançamento de novos produtos financeiros nomeadamente os chamados contratos de derivativos, a globalização do sistema financeiro e a liberalização das transações financeiras internacionais.

Precisamos recuar no tempo para podermos ter um melhor entendimento do que está por trás da crise no setor de credito “suprime” nos EUA. É uma história fascinante como veremos a seguir.

A crise das Savings & Loans

Até aos anos 80, o setor bancário nos EUA era muito regulado e fragmentado. A lei proibia um banco de ter agências em mais do que um estado. Além disso, havia fortes restrições aos juros pagos nos depósitos à vista. Isto permitia a sobrevivência de pequenas instituições bancárias, as chamadas “Savings and Loans” (S&L), de carácter local e sobretudo rural, com depósitos das pessoas na comunidade e empréstimos para habitação. No início dos anos 80, dois choques puseram as S&L à beira da falência. Primeiro, porque os seus empréstimos eram a longo prazo e a taxas nominais fixas (por exemplo, 5% a 30 anos), quando a inflação inesperadamente subiu acima dos 10%, os prejuízos acumularam-se. Segundo, com a desregulamentação do sector bancário, as S&L deixaram de conseguir atrair depósitos, pois não tinham a rede de balcões e serviços dos grandes bancos, e não conseguiam competir com os juros que se pagavam nos depósitos. Entraram na bancarrota.

Começa a processo de titularização (securitization)

Para evitar os distúrbios que estas falências trariam, sobretudo nos meios rurais, o departamento do Tesouro Americano interveio fechando as S&L e assumindo os seus créditos. Porque o governo não tem vocação para gerir empréstimos, queria vender estes ativos no sistema financeiro, mas como o volume era tão grande na faixa de $400 bilhões não se achava comprador para tudo. A solução foi ‘titularizar' estes ativos. Já existia um mercado em que os bancos combinavam esses empréstimos em pacotes e os vendiam e compravam a qualquer hora, como qualquer outro título. Por exemplo, imagine que você pede um empréstimo imobiliário na Caixa Econômica Federal. Se a Caixa Econômica Federal já tem muitos empréstimos do mesmo tipo, e quer diversificar este risco, vai a este mercado onde o vende, por exemplo, ao Bradesco. A Caixa Econômica Federal continua a assumir a gestão do empréstimo e a cobrança da dívida, mas as receitas passam a ir para o Bradesco, assim como o risco de inadimplência. Ajudado pelo impulso inicial dos ativos S&L, este mercado expandiu-se e tornou-se num sucesso, permitindo aos bancos diversificar as suas carteiras de empréstimos.

O sucesso da titularização abriu o mercado “suprime”

Esta possibilidade de diversificação do risco permitiu uma expansão do crédito nos anos 90. Tornou-se possível conceder empréstimos a grupos de maior risco. Imagine, por exemplo, um casal jovem e promissor que anda entre empregos e quer comprar a primeira casa, ou uma família de meia-idade que faz uma hipoteca para financiar a montagem de um negócio. Os contratos de empréstimo eram freqüentemente do tipo 2/28, com uma taxa baixa nos primeiros dois anos em que era necessária a liquidez, e uma taxa bem maior nos 28 seguintes para compensar o risco.
Estes empréstimos não são tresloucados, mas são com certeza arriscados, pois os jovens podem nunca conseguir emprego, e a empresa pode ir à falência. Por isso, as agências de ‘rating' deram-lhes no mercado uma classificação abaixo de A-prime, daí o nome ‘subprime'. O mercado cresceu e hoje inclui cerca de 10% dos empréstimos para a habitação nos EUA.

Ai veio a crise .

Nos últimos meses, chegaram más noticias a esse mercado. Embora já se esperasse que as taxas inadimplência fossem altas (5% ou 6%), elas acabaram por serem maiores do que se esperava (10% ou 15%). O valor dos títulos caiu, e, dois fundos gigantes de investimentos imobiliários da Bear Sterns praticamente faliram no final de Junho. Parcialmente em segredo (as carteiras de títulos são confidenciais), muitas instituições financeiras tentaram vender os seus títulos ‘subprime' para limitar as perdas levando a uma queda acentuada no seu valor desde meados de Julho. Os bancos tiveram de aumentar as suas reservas de curto prazo para fazer face ao novo risco, indo ao mercado no qual os bancos centrais fixam a taxa de juro. Isto levou a um rápido aumento da procura no mercado das reservas nos últimos dias, pondo pressão numa subida na taxa de juro. Para manter a taxa fixa no valor de referência, os bancos centrais tiveram de imprimir dinheiro para aumentar a oferta, ou seja, “injetar dinheiro”. Porque estas operações são públicas, os investidores receberam a notícia de que os bancos estavam mais expostos ao mercado ‘subprime' do que se pensava. Logo, o valor das ações dos bancos veio abaixo.

E agora!

Estamos falando de somente 1% dos devedores no mercado da habitação americano em inadimplência. Já o efeito nas ações dos bancos é obviamente negativo, porque fizeram um mau negócio no ‘subprime', mas não há mal nenhum nos bancos perderem dinheiro de vez em quando como qualquer outra empresa. O verdadeiro perigo é que os bancos estejam em pior estado do que aquele que descobrimos nos últimos meses aprofundando uma crise financeira. Os bancos centrais estão vigilantes, porém, suas ações continuam insuficientes para debelar a crise de confiança que afeta o sistema financeiro mundial. E as taxas de juro? As crises financeiras têm, normalmente, efeitos imprevisíveis e perigosos. O cenário atual é de incerteza e desconfiança generalizada nas instituições financeiras principalmente as pequenas e médias. Gerando o fenômeno de empoçamento de liquidez. Os bancos centrais em todos os países estão ampliando suas funções de emprestadores de último recurso e ao mesmo tempo reduzindo as taxas básicas de juros. Porém. na ponta dos tomadores a taxa de juros está cada vez mais alta. No caso do Brasil, um carro usado modelo 2002 era financiado ate o início de Setembro em 60 meses e uma prestação de R$ 510. Hoje a prestação é de R$ 775. O que representa um custo adicional de juros de mais de R$ 16 mil.

 

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